Esses dias eu fui perguntada se estava trabalhando e senti uma puta vergonha de dizer que não. Quase corei, respondi gaguejando. Fiquei remoendo aquilo, era como caminhar com alguma coisa presa dentro do sapato: pequena demais para conseguirmos remover, mas suficientemente incômoda para continuar caminhando. Agora já fazem quase dois anos que não trabalho. Vim fazer o mestrado, depois veio a Malu e vocês sabem o resto. Mas espera aí, como não trabalho? COMO NÃO TRABALHO? Como raio eu respondo que não trabalho? Vá lá, vamos recomeçar. Agora já fazem quase dois anos que estou fora do mercado de trabalho. Fazem quase dois anos que não saio de casa, pego metrô lotado, fico o dia fora comendo mal e recebendo trocados no fim do mês. Aí sim. Fazem quase 2 anos que não sei o que é isso.
Minha mãe vivia dizendo: estou morta! Cansada! E eu nunca entendia. "Mas cansada de quê, minha gente?". Hoje eu tenho que pedir perdão a ela publicamente por ter questionado/duvidado tantas vezes. Ela trabalhava fora e dentro de casa. Chamam de jornada dupla. Eu chamo de múltiplas jornadas, infinitas. Há quase 8 meses estou cansada, alguns dias mais, outros menos. Mas cansada, fisica e mentalmente. São muitas horas extras, turnos trocados e exaustão. Exaustão. Criar alguém é sim um trabalho. Um trabalho fora de esquemas patronais, sem carteira assinada. Talvez trabalho e não emprego, para deixar tudo nos seus devidos termos.
Maternidade e maternagem vêm ambas ensinando-me uma data de coisas, isso não é novidade. Muitas são óbvias, outras nem tanto. Aprendi que os julgamentos (os dos outros e os nossos próprios) são os maiores inimigos. Já julguei muita gente, muitas mães. Já apontei o dedo, já falei "se fosse comigo não era assim". Mas nada como um dia atrás do outro, nada como vestir a carapuça. Se fosse comigo era do mesmo jeito, se não pior. Talvez a minha vergonha em dizer que "não trabalho" seja fruto do julgamento que faça de mim mesma. Vergonha de dizer que "abandonei a minha brilhante carreira de jornalista" para estudar receitas de papinhas ou ficar aflita esperando um dente nascer. Vergonha de assumir a minha escolha. Vergonha de ser diminuída por fazê-la. Quando eu engravidei, muitos disseram que foi uma pena ter acontecido isso a alguém tão inteligente. Fiquei incomodada, mas não escondi a barriga de ninguém. Não sou vítima da maternidade. Escolhi, apesar da vergonha que me fazem sentir às vezes por tê-lo feito. Escolhi. Uma sorte que outras não têm.
Aprendi ainda que essa ideia divinal de ser mãe é uma treta. Ser mãe é ser bem humana. Há dias em que queremos poetizar, colocar tudo em verso e rimas ricas, mas mãe é muito gente. Passei a ter uma certa aversão àquela imagem sacralizada da maternidade, aquele ar quase etéreo, aquela coisa idílica. Foda-se essa história toda. Mãe come, mãe gosta de sexo, mãe xinga, mãe tem vontade de partir uma louça pra libertar a tensão, mãe cede, mãe não é obrigada. Ser mãe é ser muito real, muito de carneossoelágrimas. Ser mãe é se sentir muito sozinha às vezes, apesar do Zeca Baleiro dizer que "mesmo o mais sozinho nunca fica só".
Isso tudo para dizer que sim, eu trabalho. E talvez precise dizer isso mais a mim mesma do que a vocês. Talvez precise me lembrar que o fato de ser mãe não fez desvanecer o meu bacharelado, os estágios, os contracheques recebidos, as matérias suadas. Talvez precise me lembrar que não abandonei nada, que não há uma coisa em detrimento da outra. Talvez precise me lembrar de responder que sim, eu trabalho, apesar de não ter emprego.
